terça-feira, 17 de maio de 2016

Por que duvidaste?

Pedro, o primeiro e principal dos apóstolos, como muitos homens, sentiu em sua própria carne o peso da dúvida. Impetuoso e apaixonado, ao reconhecer seu Mestre vindo nas sombras da noite, pediu para andar sobre as águas para ir ao seu encontro.

Nesse momento, a fé de Pedro era real, porém incipiente. Baseada no amor a seu Senhor, essa fé, por ser débil, necessitava apoiar-se no prodígio. Em última instância, mais do que na palavra de Jesus, fundava sua certeza na resistência das águas.

O apóstolo avançava garboso, sacudido pelo vento e pelas ondas. Em tal confusão, sentiu medo. A firmeza de seu andar começou a ceder e a água foi se abrindo lentamente sob seus pés. Sua fé submergiu.

Diante da perspectiva do abismo, carente de todo apoio e de toda segurança, Pedro teve de voltar-se definitivamente para Jesus e depositar sua confiança Nele. Do fundo de sua dúvida e de seu temor, gritou: "Senhor, salva-me!" (Mt 14, 30). A dúvida foi o passo para a fé decisiva. A prova fê-lo transitar da confiança, talvez superficial, em seu Mestre para a fé profunda. Perdendo suas seguranças descobriu que sem Jesus ele se afundava para sempre.

Duvidar e fazer-se perguntas que tocam as raízes não significa necessariamente que tudo se acabou... Ao contrário, esta constitui, às vezes, a condição para voltar-se definitivamente para Deus. Quando já não existe apoio humano, quando tudo parece terminar, o homem pode estender suas mãos a seu Senhor e exclamar: Salva-me!

A dúvida radical pode nos auxiliar a descobrir sem imposturas, sem enfeites, a necessidade absoluta que temos de Deus.

O homem do século XX, que viu boa parte de suas certezas se romper, tem muito que aprender com a dúvida de Pedro. Tal como sucedeu ao apóstolo, sentiu que sob seus pés se desfizeram muitas seguranças, surgindo por isso inumeráveis dúvidas, temores e perguntas. Não obstante, para muitos pode ser esse o caminho do reencontro. Pedro duvidou porque não havia concedido espaço para a entrega total, mas no último momento compreendeu que Jesus estava a seu lado, disposto a estender-lhe a mão.

A verdadeira fé não anda sobre as águas... apoia-se unicamente em Deus. Quem duvida tem de saber que não está sozinho em seu mar. Quem perdeu todas as suas seguranças e quem tem necessidade de um porto, em sua impotência, pode voltar-se para o Senhor e pedir-lhe que o salve. Jesus estará sempre esperando por ele. "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" (Mt 14, 31).



Fonte: Livro: As perguntas de Jesus, Pe. Fernando Montes, SJ - ed Loyola, 2005

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